Antes de seguir viagem…
Viajar foi, por muito tempo, sinônimo de escapar. De buscar o novo, o outro, o distante. Mas… o que acontece quando essa viagem, pensada para descansar ou descobrir, acaba desgastando o que encontra?
Em muitos territórios do sul global — como a América Latina, o sudeste asiático ou a África — o turismo funcionou mais como espelho de um olhar externo do que como ponte real entre culturas. Nossa terra, rica em diversidade e memórias vivas, também tem sido palco do turismo extrativista: aquele que transforma o que é vivo em produto e esvazia as comunidades de agência e sentido.
Hoje, algo em nós pede uma pausa para refletir e imaginar outras formas de nos mover, de habitar, de nos relacionar.
É desde esse sul que pensa, que cria, que lembra, que queremos abrir uma conversa sobre turismo regenerativo. Porque acreditamos — e queremos discutir coletivamente — que o turismo, longe de ser um simples ato de lazer ou consumo, está profundamente entrelaçado com as dinâmicas de poder globais. Ele não é neutro: é uma prática que molda territórios, imaginários e futuros.
O turismo não é neutro.
Desde os lugares que são representados como “exóticos” ou “autênticos”, até quem define o preço, a narrativa e as regras do jogo, o turismo — especialmente o internacional e de massa — reproduz estruturas coloniais, extrativistas e neoliberais.
O desejo de “explorar o desconhecido” muitas vezes repete os mesmos roteiros de apropriação, simplificação e consumo cultural. Territórios complexos, cheios de história, resistência e diversidade, são empacotados como produtos atraentes para um visitante externo — que raramente enxerga o que sustenta essa experiência: o trabalho precarizado, o deslocamento ambiental, a perda do sentido de comunidade.
Em muitos cantos do Sul Global, os destinos turísticos não são apenas lugares a serem conhecidos: são cenários construídos para serem desejados, fotografados, consumidos. Lugares vivos, cheios de tensões e histórias, são reduzidos a cartões-postais. A experiências exóticas. A conteúdo.
Há comunidades que se veem obrigadas a se transformar para caber num relato alheio. Há saberes que se simplificam para serem “atrativos”. Há territórios que se esvaziam para abrir espaço ao que é rentável. E há silêncios — sobre a água, o lixo, o trabalho — que sustentam o conforto de quem chega por poucos dias.
O turismo, em sua versão mais massiva e globalizada, reproduz muitas das lógicas que dizemos querer superar: a lógica extrativista, colonial e desigual.
Com tudo isso, não estamos buscando “culpar” quem viaja. Nem negar a beleza do encontro, nem o valor do movimento. Viajar pode ser um ato de cuidado. Mas, para isso, é preciso primeiro reconhecer o peso que esse ato carrega. E nos perguntar:
O que significa nos mover pelo mundo com responsabilidade?
Que narrativas estamos sustentando quando escolhemos um destino?
O que chamamos de conhecer?
O que deixamos para trás quando chegamos a um novo lugar?
Vamos falar sobre turismo regenerativo
Nesse cenário, o conceito de turismo regenerativo começa a emergir como uma resposta crítica, ainda em construção.
Embora seja necessário reconhecer o caminho anterior, próprio do paradigma da sustentabilidade, o regenerativo se diferencia por não se limitar a minimizar danos: é um chamado à ação direta, no aqui e agora. Alerta sobre o greenwashing corporativo, ao mesmo tempo em que busca restaurar os laços comunitários, recuperar e fortalecer a vitalidade dos ecossistemas e culturas, e cocriar presentes e futuros em que os territórios não sejam apenas espaços de passagem, mas tramas vivas, ambientalmente saudáveis e interdependentes.
Por isso, o turismo regenerativo, para fazer sentido no Sul Global, não pode ser uma simples tradução de modelos importados.
Deve acolher a história das práticas, dos saberes e das lutas de cada lugar, e construir pontes com aquelas que hoje estão regenerando o tecido ecossocial.
Uma ética situada
Nesse sentido, o regenerativo não é uma técnica: é uma ética situada. É a partir dessa perspectiva que nasce este projeto. Não de um lugar de autoridade ou de saber técnico, mas como parte de um processo de observação, aprendizado e reflexão comprometida. Somos um grupo de amigos de Misiones (Argentina) e São Paulo (Brasil) com um desejo compartilhado: habitar o mundo como parte da natureza, aprendendo com ela e com os outros, construindo relações mais conscientes e cuidadosas, criando vidas mais desejáveis de serem vividas.
Nossa contribuição é modesta: abrir uma conversa, sustentar uma dúvida, construir saberes e pontes. Este blog é um diário de bordo aberto que busca articular perguntas, leituras, referências — e também testemunhos.
Queremos pensar em coletivo como nos mover sem devastar, como nos deslocar sem deshabitar, como criar sem extrair.
se alguna vez imaginaste que otro turismo es posible, pero aún no sabés cómo nombrarlo,
Se alguma vez você se sentiu fora da narrativa do turismo como ele é apresentado hoje,
se alguma vez sentiu desconforto ou dissonância entre viajar e cuidar,
se alguma vez imaginou que outro turismo é possível, mas ainda não sabe como nomeá-lo,
este espaço é para você.
Este espaço também pode ser o seu ponto de partida.
Foto de capa Jonathan Borba
